
Hoje quando saí da escola fui ao terceiro piso do HDF (para quem não sabe é o piso da Oncologia). Nunca lá tinha ido e estava receosa do que ia encontrar... Fui visitar um senhora, avó de um aluno meu. Nunca tinha feito algo assim mas desta vez deixei-me envolver. A última vez que a tinha visto tinha sido por altura do Carnaval, quando ela me foi dizer que lhe tinha sido diagnosticado um cancro no fígado e não poderia ir com tanta frequência à escola. "Não há problema."-disse- lhe eu. Eu sabia que ela é daquelas poucas pessoas que se interessa e colabora na vida escolar do seu educando, por isso mesmo longe ia estar atenta. No ano passado ofereceu-se para confeccionar o fato de Carnaval de colegas de turma cujos pais não tivessem disponibilidade, perguntava-me com frequência se nada fazia falta aos meninos, entre outos gestos de generosidade e atenção. Há pouco disto! Uma pessoa que se via à distância que estava bem com a vida e com o mundo e que tencionava proporcionar esse bem-estar a toda a gente. Pregaram-lhe uma partida... Há coisa de um mês o miúdo disse-me que à hora da saída estava uma senhora que o levava à escola e que queria falar comigo. "E a tua avó?"-perguntei. "Está doente."-respondeu secamente. Lá fui. A senhora disse-me então que a Nancy estava mal e que os médicos não tinham solução. Fiquei sem palavras. Num espaço de um mês e tal a situação descambou. Pensei para comigo que se calhar deveria contactá-la, mas para quê? Sou só a professora do neto que ela criou desde bébé e que ama acima de tudo na vida.
Hoje, o miúdo sofreu um pequeno acidente no recreio. Tínhamos que ligar para alguém, não era grave mas convinha avisar. Sabia que não podia ligar para a avó e não tinha o telefone da mãe. Perguntei-lhe: "- A tua avó está em casa?"
"-Não. A minha avó foi ao médico. Está no hospital e deve ficar lá até morrer."
Fiquei sem saber o que dizer a esta criança de sete anos que fala assim tão friamente da doença da avó. Eu conheço-o e sei que está a sofrer muito. Que dizer, que fazer... Não fui capaz de dizer nada. E ainda agora não sei o que lhe dizer... Na hora da saída fui falar com a tal senhora para lhe explicar o acidente do miúdo. Perguntei-lhe pela avó dele e ela responde-me que está muito mal e que se eu quiser ir vê-la está no terceiro piso... Fiquei à toa outra vez. Vim a conversar sobre isso no caminho para Faro. "- Vais vê-la?" Não sabia o que responder. Nem é da minha família, mas não sei porquê tinha vontade de lá ir, mas fazer o quê?...
Mas fui. Inexplicavelmente vinham-me as lágrimas aos olhos. Até quando fui à florista. Lá fui. Tinha medo do que ia encontrar. No terceiro piso encontrei uma enfermeira novinha e muito simpática (caso raro) que me acompanhou, dado o meu visível nervosismo, e me disse que ela estava mal mas que tinha uma serenidade incrível. "É normal nela." -pensei eu. Parei à entrada do quarto e respirei fundo. "Não sejas parva, vens para fazer figuras? Anda lá, sorri!"
Entreabriu os olhos e emitiu um longínquo "Hollaaaaaaa", com vontade mas sem força. Meu Deus... Imaginem uma jarra de flores na qual se esquecem de pôr água... A cor fugiu-lhe, a força também... Por estranho que pareça apenas o seu cabelo continua negro e farto. A simpatia e o sorriso também estão lá. Mas o cansaço é mais forte. Poucas palavras. Minhas e dela. Não sei o que diga. O que se diz em situações assim? Menti-lhe. Disse-lhe que o neto estava muito bem. "Gracias a dios", suspirou de alívio. Eu sei que é o que a mais preocupa. Depois de mais algumas palavras resolvi vir-me embora. Já não estava lá a fazer nada. Será que fui lá fazer alguma coisa?
Ainda me disse que nunca pensou que eu fosse lá. E ao ver-me o que terá pensado que lá fui fazer?
Levei-lhe uma rosa branca. Disse-me que era a sua preferida.



