segunda-feira, 21 de abril de 2008

Rosa branca



Hoje quando saí da escola fui ao terceiro piso do HDF (para quem não sabe é o piso da Oncologia). Nunca lá tinha ido e estava receosa do que ia encontrar... Fui visitar um senhora, avó de um aluno meu. Nunca tinha feito algo assim mas desta vez deixei-me envolver. A última vez que a tinha visto tinha sido por altura do Carnaval, quando ela me foi dizer que lhe tinha sido diagnosticado um cancro no fígado e não poderia ir com tanta frequência à escola. "Não há problema."-disse- lhe eu. Eu sabia que ela é daquelas poucas pessoas que se interessa e colabora na vida escolar do seu educando, por isso mesmo longe ia estar atenta. No ano passado ofereceu-se para confeccionar o fato de Carnaval de colegas de turma cujos pais não tivessem disponibilidade, perguntava-me com frequência se nada fazia falta aos meninos, entre outos gestos de generosidade e atenção. Há pouco disto! Uma pessoa que se via à distância que estava bem com a vida e com o mundo e que tencionava proporcionar esse bem-estar a toda a gente. Pregaram-lhe uma partida... Há coisa de um mês o miúdo disse-me que à hora da saída estava uma senhora que o levava à escola e que queria falar comigo. "E a tua avó?"-perguntei. "Está doente."-respondeu secamente. Lá fui. A senhora disse-me então que a Nancy estava mal e que os médicos não tinham solução. Fiquei sem palavras. Num espaço de um mês e tal a situação descambou. Pensei para comigo que se calhar deveria contactá-la, mas para quê? Sou só a professora do neto que ela criou desde bébé e que ama acima de tudo na vida.


Hoje, o miúdo sofreu um pequeno acidente no recreio. Tínhamos que ligar para alguém, não era grave mas convinha avisar. Sabia que não podia ligar para a avó e não tinha o telefone da mãe. Perguntei-lhe: "- A tua avó está em casa?"


"-Não. A minha avó foi ao médico. Está no hospital e deve ficar lá até morrer."


Fiquei sem saber o que dizer a esta criança de sete anos que fala assim tão friamente da doença da avó. Eu conheço-o e sei que está a sofrer muito. Que dizer, que fazer... Não fui capaz de dizer nada. E ainda agora não sei o que lhe dizer... Na hora da saída fui falar com a tal senhora para lhe explicar o acidente do miúdo. Perguntei-lhe pela avó dele e ela responde-me que está muito mal e que se eu quiser ir vê-la está no terceiro piso... Fiquei à toa outra vez. Vim a conversar sobre isso no caminho para Faro. "- Vais vê-la?" Não sabia o que responder. Nem é da minha família, mas não sei porquê tinha vontade de lá ir, mas fazer o quê?...


Mas fui. Inexplicavelmente vinham-me as lágrimas aos olhos. Até quando fui à florista. Lá fui. Tinha medo do que ia encontrar. No terceiro piso encontrei uma enfermeira novinha e muito simpática (caso raro) que me acompanhou, dado o meu visível nervosismo, e me disse que ela estava mal mas que tinha uma serenidade incrível. "É normal nela." -pensei eu. Parei à entrada do quarto e respirei fundo. "Não sejas parva, vens para fazer figuras? Anda lá, sorri!"


Entreabriu os olhos e emitiu um longínquo "Hollaaaaaaa", com vontade mas sem força. Meu Deus... Imaginem uma jarra de flores na qual se esquecem de pôr água... A cor fugiu-lhe, a força também... Por estranho que pareça apenas o seu cabelo continua negro e farto. A simpatia e o sorriso também estão lá. Mas o cansaço é mais forte. Poucas palavras. Minhas e dela. Não sei o que diga. O que se diz em situações assim? Menti-lhe. Disse-lhe que o neto estava muito bem. "Gracias a dios", suspirou de alívio. Eu sei que é o que a mais preocupa. Depois de mais algumas palavras resolvi vir-me embora. Já não estava lá a fazer nada. Será que fui lá fazer alguma coisa?

Ainda me disse que nunca pensou que eu fosse lá. E ao ver-me o que terá pensado que lá fui fazer?


Levei-lhe uma rosa branca. Disse-me que era a sua preferida.

2 comentários:

barriguita disse...

O que foste lá fazer?! foste lá fazer aquilo que o teu coração te mandou...o facto é que muitas vezes, sem percebermos bem porquê, tomamos atitudes que parecem não fazer muito sentido mas no fundo acabam por ser aquilo que precisamos fazer, não só por nós mas também pelos outrso.
O que terá ela pensado?! Creio que não terá perdido muito tempo a pensar nisso, provavelmente aproveitou somente o momento que tu lhe deste e sentiu-se melhor por causa dele.
Bonito gesto. Bjs

Pinky disse...

Obrigada amiga! Tens razão! Bjs